Bens de capital pesado sofrem com falta de grandes projetos

By 31 de outubro de 2018Notícias

Com a perda de fôlego da recuperação da indústria, um terço dos segmentos do setor permanecem em quadro de crise, com destaque para os fabricantes de bens de capital pesados, associados a grandes projetos de investimento, mostra levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), obtido pelo Valor.

De acordo com o estudo, 33 dos 93 segmentos industriais acompanhados pelo IBGE (35% do total) estavam em crise ou estagnados de janeiro a agosto em relação ao mesmo período do ano passado. O Iedi usou como critério a variação do nível de produção entre os dois períodos.

Dos bens de capital pesados que aparecem na “lona” estão, por exemplo, fabricantes de tanques, reservatórios metálicos e caldeiras (queda de 17,5% na produção no ano até agosto); de geradores, transformadores e motores elétricos (baixa de 4,8%); e de máquinas e equipamentos de uso geral (perda de 1%).

Fatores como o nível de ociosidade da economia e as incertezas políticas estão por trás da queda da produção, além do acesso ao crédito, acrescenta Rafael Cagnin, economista do Iedi e autor do levantamento. O custo do financiamento do BNDES ficou mais caro, sem que outra fonte ocupasse seu lugar, explica.

Cagnin inclui na lista de motivos para o declínio da produção o fato de o setor de construção pesada permanecer desarticulado após a Operação Lava-Jato. “Grandes obras de infraestrutura costumam ser demandadas pelo setor público, que permanece num processo de ajustamento de suas contas.”

Esse quadro para os bens de capital pesados pode começar a mudar agora, com a definição eleitoral, de acordo com Wagner Setti, presidente da Câmara Setorial de Projetos e Equipamentos Pesados (CSPEP), da Abimaq. Segundo ele, empresas já começaram a atualizar cotações de antigos projetos engavetados nas últimas semanas.

“As companhias não necessariamente estão comprando bens de capital, mas começam a procurar as empresas para atualizar orçamentos. É um movimento ainda inicial e nem tudo deve sair do papel. Porém, é um sinal de que pode haver melhora pela frente.”

Os bens de capital de forma geral cresceram 9% de janeiro a agosto ante igual período de 2017. Boa parte do resultado é explicada, porém, pela forte expansão da produção de caminhões, especialmente para a exportação. Também é ajudado pela produção de máquinas para o setor de mineração.

Outros segmentos da indústria também aparecem em crise ou estagnados, como fabricantes de vestuário, brinquedos e de alguns tipos de alimentos. Nestes casos, o desempenho negativo pode estar relacionado ao mercado de trabalho, que se recupera mais lentamente neste ano, segundo análise do economista do Iedi.

“O mercado de trabalho iniciou uma recuperação importante no ano passado, mas que não foi para frente. Pessoas que conseguiram emprego obtiveram em posição inferior à que tinham antes”, disse Cagnin.

Do lado mais positivo, 54 dos 93 segmentos industriais acompanhados estão em recuperação, embora apenas 13 sejam classificadas como “intensa”. Destacaram-se as montadoras e parte dos fabricantes de bens de capital, como máquinas e equipamentos para a extração mineral e construção.